Pagode desafinado
Ronaldinho foi para o Flamengo, mas quem deu o tom da semana foi seu irmão e empresário, Assis
Domingo 16 de Janeiro de 2011, 11h49 - por Ivan Marsiglia
Se a propaganda é a alma do negócio, convém não vendê-la ao diabo. Para muita gente, foi o que aconteceu na transação milionária que trouxe Ronaldinho Gaúcho, 30 anos, de volta ao futebol brasileiro. A despeito de todas as ironias dos comentaristas esportivos sobre o "ex-melhor do mundo" e de seus malabarismos fora de campo, o que só poderia surgir como boa notícia para os fãs da bola no Brasil transformou-se numa
Assis, o primogênito, e Ronaldinho, o caçula
novela de irritar qualquer espectador. E o personagem central, e candidato a vilão, foi o empresário e irmão mais velho do craque, Roberto de Assis Moreira.
Martelo batido depois de um esganiçado leilão que envolveu o Grêmio, o Palmeiras, o Corinthians e o Flamengo, na quarta-feira Ronaldinho apresentou enfim suas chuteiras à Gávea - numa festa acompanhada por 20 mil torcedores rubro-negros que deixou no chinelo as recepções a Ronaldo, no Corinthians, e Robinho, no Santos. "Agora sou Mengão", gritou o craque, tentando espantar o anticlímax que ficou, após as conversas desafinadas conduzidas pelo irmão-empresário com clubes brasileiros.
"Quem não cumpriu a palavra foi o Assis", fustigou Luiz Felipe Scolari, técnico do preterido alviverde: "Ligaram para mim dizendo que estava fechado. Falei para o meu filho a notícia. Mas, no mesmo dia à noite, Assis já estava em um encontro com a diretoria do Flamengo." No Grêmio, time já magoado pela tumultuada saída, em 2001, de sua jovem promessa de dentes tortos para o Paris Saint-Germain, a bronca foi ainda maior. Depois de também dar a contratação do craque como certa, o clube teve de engolir uma segunda decepção. A ponto de um deputado estadual gremista protocolar, na Assembleia Legislativa de Porto Alegre, um documento que declara os dois irmãos personae non gratae no Rio Grande do Sul. Até o rei Pelé entrou de sola, opinando que Ronaldinho, "com a vida feita", deveria ter optado por jogar de graça em seu clube de origem.
Graça, diga-se, é o que menos se tem visto, tanto no futebol do caçula como na gestão de sua carreira pelo primogênito. Aos 40 anos, Assis - que também foi jogador revelado pelo Grêmio com uma carreira internacional de relativo sucesso no FC Sion da Suíça e no Sporting CP de Portugal - aparentemente zela mais pelos contratos que pelo comprometimento do irmão com o nobre esporte bretão. Diante das críticas de todos os lados, atribuiu ao Milan a palavra final no acordo pelo qual Ronaldinho deverá receber R$ 72 milhões nos próximos quatro anos, e preferiu não falar do assunto com o Aliás.
A confiança de Ronaldinho em relação ao irmão se explica em parte pelo papel que ele assumiu na vida do craque após a morte trágica do pai em um acidente, quando Ronaldinho tinha apenas 8 anos. A essa altura, o menino já revelava lampejos de genialidade na escolinha do Grêmio - de onde, aos 17, passaria aos profissionais. E Assis foi aos poucos abandonando sua carreira futebolística já na descendente para entrar em campo como manager do craque.
O mundo gira e a bola também. Hoje, é ele quem conduz a bola nas diversas empresas da família, reunidas sobre o pomposo chapéu "Assis Moreira Group" - que incluem, entre outras, o time do Porto Alegre FC, a agência de marketing Planet Sports & Entertainment e a ONG Instituto Ronaldinho Gaúcho. A última envolveu-se recentemente em uma polêmica com a prefeitura de Porto Alegre, que rescindiu o contrato que mantinham desde 2007. "A proposta ficou muito além daquilo que poderíamos pagar", justificou a secretária municipal de Educação, Cleci Jurach: "Em 2010, pagamos R$ 1,4 milhão. O pedido da família Assis elevaria o valor em 160%, chegando a R$ 3,7 milhões". Isso para dar assistência ao mesmo número de crianças carentes do ano anterior: 700.
Feliz ou infelizmente a redenção, no bilionário mercado do futebol de nossos dias, continua onde sempre esteve: dentro dos gramados. Se Ronaldinho jogar parte do que sabe no Flamengo, poderá enterrar toda essa controvérsia e carimbar seu passaporte de volta à seleção brasileira na Copa de 2014 - para, quem sabe, ainda encerrar a carreira em grande estilo no futebol europeu. Então, alguém poderá dizer que a parceria com o irmão Assis, enfim, acertou o passo
Pós-doutora em Comunicação pela ECA-USP: Doutora e Mestre em Comunicação e Semiótica pela Puc - SP; Profa Profa ESPM , São Judas, ítalo-Brasileiro, Mackenzie, Casper Líbero.
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
O artigo do Estadão de Matthew Shirts sobre o Facebook
O livro dos caras
publicado no O Estado de S.Paulo de hoje, 17 de janeiro de 2011
Saí cedo do aniversário de Thiago, um dos editores da revista National Geographic Brasil, onde trabalho também. É garoto ainda. Fez 30 anos semana passada (A National fez 123). A festa foi no bar do Sasha, na Vila Madalena, hoje conhecido como Sashão, porque há filiais menores espalhadas pela região. Mas este endereço foi o primeiro, a sede, o da Rua Original. Quando abriu, há duas décadas, era pequenininho também, com duas churrasqueiras de design exótico instaladas na calçada, ou próximas dela, onde se fazia costela de boi "no bafo", um processo primitivo e gostoso de cozimento.
Deixar a reuniãozinha justamente quando começava a se animar não me agradou. Chegavam os amigos de Thiago da faculdade, a Metodista, em São Bernardo. Moravam todos ou quase, soube, em um prédio onde havia apenas aposentados ou estudantes em repúblicas, sobretudo de mulheres. Um mix curioso. O síndico tinha a língua presa e costumava começar as falas e broncas com a frase, "Gente, eu também já fui jovem"...
Mas eu queria assistir, ainda naquela noite, à única sessão do filme sobre o Facebook, A Rede Social, marcada para as 21h40 no cinema Unibanco da Rua Augusta. É este, talvez, o ponto de maior simpatia, hoje, na cidade de São Paulo. Há uma concentração de cinemas e livrarias e bares e cafés e vendedores de rua naqueles quarteirões em volta da esquina da Augusta com a Avenida Paulista. O movimento é de cidade grande, anônimo e intenso, mas se mistura com um personalismo interiorano ao cair da noite. Sempre encontro amigos ali, por acaso. Tem pipoqueiro. Há aquela sociabilidade brasileira animada, quase frenética, de muitos gestos e grupos e falas nas calçadas. O cenário alegra meu espírito.
Ao entrar na pequena sala 5 do Unibanco, divertia-me colocando frases na minha própria página do Facebook para a leitura dos meus "amigos" virtuais. Postava no FB, como também é conhecido, enquanto esperava o filme do Facebook - A Rede Social - começar. Achava isso divertido até que meu filho Lucas, de 26 anos, enviou instruções, por escrito, via FB também, não sei de onde, para eu deixar de brincar com meu telefone e assistir ao filme. Em algum momento os filhos começam a censurar a gente.
Você já deve conhecer, ao menos por alto, a história do filme. Se não, e se não quiser estragar o prazer de vê-lo ainda virgem, é melhor encerrar a leitura na próxima marca de pontuação.
Um estudante de Harvard, gênio de computador, mas aparentemente fraco em "inteligência emocional", inventa uma maneira fácil de estudantes da faculdade se apresentarem um ao outro, com fotos, currículo, vídeos e outras informações via internet. Dá muito certo logo. De Harvard é levado para Yale, Princeton e Stanford - esta no Vale do Silício, a capital de inovação no mundo dos nerds (gênios). E de lá para o mundo. Hoje são 500 milhões de usuários.
Mas o gênio, Mark Zuckerberg, na vida real, é acusado primeiro de ter roubado a ideia de outros alunos, esses mais grã-finos, de Harvard. E, depois, de ter sacaneado seu sócio e único amigo, Eduardo Saverin, brasileiro que se mudou com os pais para Miami, quando jovem, para não correr o risco de sequestro. O enredo é contado, quase todo, a partir dos procedimentos judiciais movidos por Saverin e os grã-finos.
Surpreendeu-me no filme a abordagem da sociabilidade jovem. Há um único momento de diversão verdadeira na história toda. Esperava eu conhecer ambientes de trabalho criativos, gente interessante, grandes amizades forjadas na faculdade que geram uma cultura nova. O que vi são egos deformados e frágeis, competição intensa, mas árida, garotas bonitas, mas interesseiras e idiotas. Um deserto emocional.
E aí está o valor do filme: retratar a crise de sociabilidade que assola os Estados Unidos. Em uma sociedade onde o único valor de consenso é o "sucesso", as pessoas se dão com dificuldade. Os conflitos são resolvidos ou na Justiça, ou aos berros ou, na pior das hipóteses, por meio das armas de fogo.
O filme é interessante não porque mostra que Zuckerberg criou uma rede de "amigos virtuais" para suprir a falta deles no mundo real. Mas sim, porque, ele, gênio, entendeu a vasta pobreza das relações pessoais que assola a cultura americana neste momento. Na crise de sociabilidade, que era sua também, viu uma oportunidade e soube preenchê-la com maestria e talento matemático. Pena que perdeu seu único amigo de verdade ao fazê-lo, por coincidência ou não, um brasileiro.
O Facebook é divertido. Criá-lo parece ter sido uma chatice. Na próxima vez que for ao boteco, vou ver se consigo puxar esse papo com os amigos.
EXCELENTE TEXTO, PARA QUEM ADORA AS REDES SOCIAIS, COMO EU, MAS OS AMIGOS, O BOM PAPO, O BOTECO ACOMPANHADO POR UM CHORINHO EU NÃO DISPENSO. Disponível < http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110117/not_imp667053,0.php> acesso em 17 de janeiro de 2011
publicado no O Estado de S.Paulo de hoje, 17 de janeiro de 2011
Saí cedo do aniversário de Thiago, um dos editores da revista National Geographic Brasil, onde trabalho também. É garoto ainda. Fez 30 anos semana passada (A National fez 123). A festa foi no bar do Sasha, na Vila Madalena, hoje conhecido como Sashão, porque há filiais menores espalhadas pela região. Mas este endereço foi o primeiro, a sede, o da Rua Original. Quando abriu, há duas décadas, era pequenininho também, com duas churrasqueiras de design exótico instaladas na calçada, ou próximas dela, onde se fazia costela de boi "no bafo", um processo primitivo e gostoso de cozimento.
Deixar a reuniãozinha justamente quando começava a se animar não me agradou. Chegavam os amigos de Thiago da faculdade, a Metodista, em São Bernardo. Moravam todos ou quase, soube, em um prédio onde havia apenas aposentados ou estudantes em repúblicas, sobretudo de mulheres. Um mix curioso. O síndico tinha a língua presa e costumava começar as falas e broncas com a frase, "Gente, eu também já fui jovem"...
Mas eu queria assistir, ainda naquela noite, à única sessão do filme sobre o Facebook, A Rede Social, marcada para as 21h40 no cinema Unibanco da Rua Augusta. É este, talvez, o ponto de maior simpatia, hoje, na cidade de São Paulo. Há uma concentração de cinemas e livrarias e bares e cafés e vendedores de rua naqueles quarteirões em volta da esquina da Augusta com a Avenida Paulista. O movimento é de cidade grande, anônimo e intenso, mas se mistura com um personalismo interiorano ao cair da noite. Sempre encontro amigos ali, por acaso. Tem pipoqueiro. Há aquela sociabilidade brasileira animada, quase frenética, de muitos gestos e grupos e falas nas calçadas. O cenário alegra meu espírito.
Ao entrar na pequena sala 5 do Unibanco, divertia-me colocando frases na minha própria página do Facebook para a leitura dos meus "amigos" virtuais. Postava no FB, como também é conhecido, enquanto esperava o filme do Facebook - A Rede Social - começar. Achava isso divertido até que meu filho Lucas, de 26 anos, enviou instruções, por escrito, via FB também, não sei de onde, para eu deixar de brincar com meu telefone e assistir ao filme. Em algum momento os filhos começam a censurar a gente.
Você já deve conhecer, ao menos por alto, a história do filme. Se não, e se não quiser estragar o prazer de vê-lo ainda virgem, é melhor encerrar a leitura na próxima marca de pontuação.
Um estudante de Harvard, gênio de computador, mas aparentemente fraco em "inteligência emocional", inventa uma maneira fácil de estudantes da faculdade se apresentarem um ao outro, com fotos, currículo, vídeos e outras informações via internet. Dá muito certo logo. De Harvard é levado para Yale, Princeton e Stanford - esta no Vale do Silício, a capital de inovação no mundo dos nerds (gênios). E de lá para o mundo. Hoje são 500 milhões de usuários.
Mas o gênio, Mark Zuckerberg, na vida real, é acusado primeiro de ter roubado a ideia de outros alunos, esses mais grã-finos, de Harvard. E, depois, de ter sacaneado seu sócio e único amigo, Eduardo Saverin, brasileiro que se mudou com os pais para Miami, quando jovem, para não correr o risco de sequestro. O enredo é contado, quase todo, a partir dos procedimentos judiciais movidos por Saverin e os grã-finos.
Surpreendeu-me no filme a abordagem da sociabilidade jovem. Há um único momento de diversão verdadeira na história toda. Esperava eu conhecer ambientes de trabalho criativos, gente interessante, grandes amizades forjadas na faculdade que geram uma cultura nova. O que vi são egos deformados e frágeis, competição intensa, mas árida, garotas bonitas, mas interesseiras e idiotas. Um deserto emocional.
E aí está o valor do filme: retratar a crise de sociabilidade que assola os Estados Unidos. Em uma sociedade onde o único valor de consenso é o "sucesso", as pessoas se dão com dificuldade. Os conflitos são resolvidos ou na Justiça, ou aos berros ou, na pior das hipóteses, por meio das armas de fogo.
O filme é interessante não porque mostra que Zuckerberg criou uma rede de "amigos virtuais" para suprir a falta deles no mundo real. Mas sim, porque, ele, gênio, entendeu a vasta pobreza das relações pessoais que assola a cultura americana neste momento. Na crise de sociabilidade, que era sua também, viu uma oportunidade e soube preenchê-la com maestria e talento matemático. Pena que perdeu seu único amigo de verdade ao fazê-lo, por coincidência ou não, um brasileiro.
O Facebook é divertido. Criá-lo parece ter sido uma chatice. Na próxima vez que for ao boteco, vou ver se consigo puxar esse papo com os amigos.
EXCELENTE TEXTO, PARA QUEM ADORA AS REDES SOCIAIS, COMO EU, MAS OS AMIGOS, O BOM PAPO, O BOTECO ACOMPANHADO POR UM CHORINHO EU NÃO DISPENSO. Disponível < http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110117/not_imp667053,0.php> acesso em 17 de janeiro de 2011
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