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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Escravos da Moda

Exploração de trabalho em condições degradantes em fábrica de fornecedoras da grife Zara em São Paulo mancha reputação da marca espanhola




Flávio Costa





CONTRASTE

Fachada de loja da rede em São Paulo e detalhes da confecção em Americana: trabalhadores

amontoados em meio à sujeira em um espaço sem ventilação tinham jornadas sem descanso




A trajetória ascendente da grife espanhola Zara levou seu fundador, Amancio Ortega, ao posto de sétimo homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 31 bilhões. O frisson provocado pela entrada no mercado brasileiro, em 1999, transformou a marca em item obrigatório no closet das consumidoras de classe média. Mas uma mancha surgiu em meio à tamanha opulência. Na semana passada, fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) descobriram um esquema de utilização de mão de obra escrava em três fábricas de fornecedoras da Zara, em São Paulo, nas quais 68 trabalhadores recebiam poucos centavos por peça produzida em condições subumanas.



O caso rapidamente tornou-se o assunto principal nas redes sociais e um dos tópicos mais comentados do Twitter. Críticas severas, avisos de boicotes e piadinhas como “o diabo veste Zara” se reproduziram de maneira viral. Tragada pelo escândalo, a controladora do grupo, a Inditex, que faturou US$ 15,8 bilhões em 2010, emitiu nota eximindo-se de culpa: “Ao ter conhecimento dos fatos, a Inditex exigiu que o fornecedor responsável pela terceirização não autorizada regularizasse a situação imediatamente. O fornecedor assumiu totalmente as compensações econômicas dos trabalhadores tal como estabelece a lei brasileira e o Código de Conduta Inditex.” A empresa disse estar disposta a colaborar com as autoridades brasileiras.



Mas Zara terá que fazer muito mais para limpar sua reputação, da mesma forma que outras multinacionais do ramo da confecção, envolvidas em exploração de trabalhadores em condições degradantes. “É uma crise de caráter. Os consumidores identificam a empresa com desonestidade, com má-fé. O primeiro erro já foi cometido após a crise: transferir a culpa para fornecedoras”, afirma José Eduardo Prestes, consultor há 12 anos em gestão de crise e professor de pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing. “A proporção que o escândalo atingiu exige que a liderança mundial da empresa, Amancio Ortega, se posicione publicamente.” Segundo Prestes, a empresa deveria mostrar que medidas foram tomadas para sanar o problema.



Palavras não deverão ser suficientes para impedir que os responsáveis pela Zara respondam por ações penais no Brasil, cujo crime de utilização de trabalho escravo está tipificado no Código Penal. A investigação conduzida pelo Ministério Público do Trabalho e pelo MTE começou em maio, na cidade de Americana, interior paulista, onde se descobriu uma oficina com 52 funcionários (46 bolivianos, cinco brasileiros e um chileno) trabalhando em péssimas condições e com remuneração mínima. Metade da produção da fábrica, que foi fechada na época, era destinada à grife espanhola. O resto, segundo a procuradoria, era das marcas Ecko, Gregory, Billabong, Brooksfield, Cobra d’Água e Tyrol, que serão instadas a regularizar a situação. A apuração levou ao descortinamento de toda uma cadeia produtiva, na qual os direitos mais básicos do trabalhador eram desrespeitados. Tornou-se comum, no Brasil, aliciar bolivianos e colocá-los em locais insalubres para a fabricação de vestuário popular. A prática ilegal chegou ao mundo das grifes.



Em duas oficinas, 16 bolivianos amontoavam-se em um espaço exíguo entre enormes volumes de peças, em meio à sujeira, falta de ventilação e com fiação elétrica exposta. Não havia descanso. A jornada diária era de até 16 horas e a remuneração, irrisória. O dono da oficina recebia apenas R$ 6 por calça jeans fabricada. Deste valor, apenas um terço era dividido para os trabalhadores. Na loja, a mesma peça é vendida por R$ 135, em média. No Brasil, a Zara possui 31 lojas e 50 fornecedores fixos. “Os trabalhadores estavam submetidos a condições análogas à de escravo. A Zara é responsável direta, pois toda a produção era destinada à empresa”, afirma Fabíola Junges Zani, procuradora do Trabalho. As multas podem chegar a R$ 1 milhão.

Mancha será sempre lembrada

Tenho vergonha de vocês". "Nunca mais compro nada nesta loja". Esse tipo de comentário se tornou comum no Twitter e no Facebook nos últimos dias, desde que a Zara e outras seis marcas foram envolvidas em denúncias de trabalho escravo e ilustra a dimensão do dano à imagem das empresas em tempos de redes sociais. "Sempre houve crises, mas as mídias sociais conferem a elas abrangência, penetração e velocidade que não havia antes. O dano à imagem e à reputação das marcas é muito maior", diz o professor de comunicação da crise e consultor em gestão de crises da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Eduardo Prestes.




Ele explica que esses danos podem perseguir as empresas por anos a fio caso a ação para contornar a crise não seja eficaz. Prestes diz que não há um manual para essas situações, mas aponta práticas danosas que estão sendo utilizadas pela Zara. "Não se deve negar os fatos, nem tentar transferir a culpa para parceiros, fornecedores, trabalhadores. Pode-se tentar fazer isso nos tribunais, mas não em público", aponta. Ele lembra que a Zara, a princípio, tentou transferir a culpa pela situação dos trabalhadores para a confecção terceirizada. Segundo ele, o ideal seria a empresa vir a público, se desculpar e posicionar-se claramente contra o trabalho escravo.



O professor de publicidade e propaganda multimídia do Uni-BH, Salomão Terra, também aponta essa postura humanizada como a mais indicada. "A marca não pode se abstrair, deixar os usuários sem resposta. Ela tem que marcar uma posição púbica e, se for pertinente, estreitar a conversa com algum usuário", diz.



Piada. Além das críticas, as denúncias de exploração de trabalhadores em São Paulo renderam muitas piadas nas redes sociais. O "Sensacionalista", um perfil que publica apenas notícias falsas, anunciou o que seria a nova novela nacional: "depois de ‘O Astro’ vem aí um novo remake, ‘A escrava é Zara". Um outro post, de origem desconhecida, se propagou pelo Twitter alardeando um novo filme chamado "O Diabo veste Zara".



Hugo Gloss, conhecido por seus "bons-dias" bem humorados no Twitter, também não perdeu a piada e escreveu ontem de manhã: "bom dia você que descobriu que trabalha na Zara porque estão te fazendo de escravo".















FOTO: MPT/DIVULGAÇÃOEm Americana, 45 trabalhadores são bolivianos e um é chilenoMPT/DIVULGAÇÃOEm Americana, 45 trabalhadores são bolivianos e um é chilenoInvestigaçãoOutras 35 marcas estão sob sUSPeita



São Paulo. No rastro da investigação sobre a Zara, 35 empresas do varejo de moda estão sob sUSPeita de utilizar mão de obra irregular. Desse total, há 20 grandes marcas e 15 lojas do Brás e do Bom Retiro, bairros da região central de São Paulo com intenso comércio de roupas, afirma o auditor fiscal do Ministério do Trabalho, Luís Alexandre de Faria. A base das sUSPeitas são os métodos semelhantes de fluxo de mercadorias.


O TEMPO (MG) • ECONOMIA • 20/8/2011

Trabalho escravo

Mancha será sempre lembrada



Segundo Faria, os nomes não podem ser revelados para não prejudicar as investigações. "Temos de realizar as operações aos poucos porque não temos condições humanas de ir a todos os locais ao mesmo tempo", disse ele.



A Superintendência Regional do Trabalho de São Paulo já multou pelo menos cinco grandes empresas por trabalho ilegal. Marisa, Pernambucanas, Zara, Collings e FG Confecções foram autuadas em mais de R$ 4,5 milhões. Renato Bignami, assessor da Secretaria de Inspeção do Trabalho, órgão ligado ao Ministério do Trabalho, disse que mais de 200 autos de infração foram registrados desde o segundo semestre de 2009.
 

Escravos da moda


ISTO É (SP) • COMPORTAMENTO • 21/8/2011
Exploração de trabalho em condições degradantes em fábrica de fornecedoras da grife Zara em São Paulo mancha reputação da marca espanhol. A trajetória ascendente da grife espanhola Zara levou seu fundador, Amancio Ortega, ao posto de sétimo homem mais rico do mundo, com uma fortuna estimada em US$ 31 bilhões. O frisson provocado pela entrada no mercado brasileiro, em 1999, transformou a marca em item obrigatório no closet das consumidoras de classe média. Mas uma mancha surgiu em meio à tamanha opulência. Na semana passada, fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) descobriram um esquema de utilização de mão de obra escrava em três fábricas de fornecedoras da Zara, em São Paulo, nas quais 68 trabalhadores recebiam poucos centavos por peça produzida em condições subumanas.
O caso rapidamente tornou-se o assunto principal nas redes sociais e um dos tópicos mais comentados do Twitter. Críticas severas, avisos de boicotes e piadinhas como “o diabo veste Zara” se reproduziram de maneira viral. Tragada pelo escândalo, a controladora do grupo, a Inditex, que faturou US$ 15,8 bilhões em 2010, emitiu nota eximindo-se de culpa: “Ao ter conhecimento dos fatos, a Inditex exigiu que o fornecedor responsável pela terceirização não autorizada regularizasse a situação imediatamente. O fornecedor assumiu totalmente as compensações econômicas dos trabalhadores tal como estabelece a lei brasileira e o Código de Conduta Inditex.” A empresa disse estar disposta a colaborar com as autoridades brasileiras.
Mas Zara terá que fazer muito mais para limpar sua reputação, da mesma forma que outras multinacionais do ramo da confecção, envolvidas em exploração de trabalhadores em condições degradantes. “É uma crise de caráter. Os consumidores identificam a empresa com desonestidade, com má-fé. O primeiro erro já foi cometido após a crise: transferir a culpa para fornecedoras”, afirma José Eduardo Prestes, consultor há 12 anos em gestão de crise e professor de pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing. “A proporção que o escândalo atingiu exige que a liderança mundial da empresa, Amancio Ortega, se posicione publicamente.” Segundo Prestes, a empresa deveria mostrar que medidas foram tomadas para sanar o problema.
Palavras não deverão ser suficientes para impedir que os responsáveis pela Zara respondam por ações penais no Brasil, cujo crime de utilização de trabalho escravo está tipificado no Código Penal. A investigação conduzida pelo Ministério Público do Trabalho e pelo MTE começou em maio, na cidade de Americana, interior paulista, onde se descobriu uma oficina com 52 funcionários (46 bolivianos, cinco brasileiros e um chileno) trabalhando em péssimas condições e com remuneração mínima. Metade da produção da fábrica, que foi fechada na época, era destinada à grife espanhola. O resto, segundo a procuradoria, era das marcas Ecko, Gregory, Billabong, Brooksfield, Cobra d’Água e Tyrol, que serão instadas a regularizar a situação. A apuração levou ao descortinamento de toda uma cadeia produtiva, na qual os direitos mais básicos do trabalhador eram desrespeitados. Tornou-se comum, no Brasil, aliciar bolivianos e colocá-los em locais insalubres para a fabricação de vestuário popular. A prática ilegal chegou ao mundo das grifes.
Em duas oficinas, 16 bolivianos amontoavam-se em um espaço exíguo entre enormes volumes de peças, em meio à sujeira, falta de ventilação e com fiação elétrica exposta. Não havia descanso. A jornada diária era de até 16 horas e a remuneração, irrisória. O dono da oficina recebia apenas R$ 6 por calça jeans fabricada. Deste valor, apenas um terço era dividido para os trabalhadores. Na loja, a mesma peça é vendida por R$ 135, em média. No Brasil, a Zara possui 31 lojas e 50 fornecedores fixos. “Os trabalhadores estavam submetidos a condições análogas à de escravo. A Zara é responsável direta, pois toda a produção era destinada à empresa”, afirma Fabíola Junges Zani, procuradora do Trabalho. As multas podem chegar a R$ 1 milhão. 

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